
Numa surfada errante por estes fluxos binários a que chamamos internet deparei-me com uns documentos sobre um dos seres humanos mais fantásticos que pisou a crosta terrestre.
Galileu Galilei foi sem dúvida um dos pais do que nós chamamos hoje em dia de revolução científica.
Inventor do método empírico, que corta com os métodos clássicos aristotélicos, a lei dos corpos, o princípio da inércia, ideias que só séculos mais tarde inspiraram Newton, o termómetro, o compasso geométrico, o relógio de pêndulo. Chamem-lhe físico, matemático, filósofo...no fundo um naturalista, alguém que escutou a natureza de uma forma como poucos o tinham feito.
Mas tenha sido ao melhorar o modelo existente de telescópio ou então depois de ter lido o «De Revolutionibus Orbium Coelestium» do cónego (ironia celestial!) Mikołaj Kopernik que saíu do mundo e centrou os sentidos desde os vales da Lua até aos anéis de Saturno. Para quem olha para o céu, e falamos do pai da ciência moderna que por si inventou o conceito, empiricamente se percebe que centrando assim os sentidos algo diferente está no centro: Apollo, o deus Sol. Sol este que arde e no fundo quase teria sido ele a arder por tal proximidade de observação.
Sim o homem foi perseguido, mas "não foi por muito tempo"... Chamado a Roma no ano de 1633 por processo de heresia em 1992 finalmente foi admitido o erro pela perseguissão da seita católica. Fracas engrenagens da burocracia divina talvez..
Analiso citações soltas e apresento-as como um discurso directo entre ambos, sagrado e profano:
«Afirmar que o Sol está fixo no centro dos céus e que a Terra anda à sua volta é algo bastante perigoso, não só por irritar teólogos e filósofos, mas magoando a nossa sagrada fé e tornando as sagradas escrituras falsas», cardeal Bellarmine.
«Factos que a uma primeira análise pareçam imporváveis, mesmo com uma simples explicação, deixarão cair os mantos que os escondiam e aparecem diante de nós nús com a beleza da sua simplicidade», Galileu.
Esta conversa está documentada, e numa outra ocasição o cardeal Bellarmine solta mais uma pérola que funciona como quase um hino a toda a evolução do pensamento humano:
«A liberdade de crença é pernicioso. Não é mais do que a liberdade de se estar errado»
Um dos outros argumentos formais apresentados pelo tribunal da quasi-santa fé:
«A doutrina de que a terra não é nem o centro do universo nem que é imóvel, mas que se move e até com uma rotação diária, é absurda, e é tanto psicologicamente como teológicamente falsa, mas também um enorme erro de fé»
«A doutrina dos movimentos da terra de de um Sol fixo é condenado no chão em que as escrituras que contam um Sol que se move e uma terra que está parada. Eu acho que na discução de problemas da natureza nós devemos começar não pelas escrituras mas sim pela experimentação e demonstrações.» responde Galileu.
Enfim a lista é longa, a discussão hárdua, e o argumento final recheado de um humor que só séculos mais tarde seria refinado pelos ingleses, Galileu, o pai da ciência moderna, foi condenado caso não negasse aquilo que observou pela seguinte frase:
«Afirmar que a Terra anda em torno do Sol é tão errado como afirmar que Jesus não nasceu de uma virgem». cardeal Bellarmine, 1615
Ora temendo que lhe acontecesse o mesmo que aconteceu a outro grande herege, por quem nutro também grande respeito, Giordano Bruno, que foi também queimado pelo mesmo tribunal quasi-santo por defender algo tão "absurdo e herege" como um universo infinito povoado por vários sistemas solares (veja-se que estávamos em 1566!), salvou inteligentemente a sua pele afirmando:
«Por ter sido aconselhado, por este Santo Ofício, a abandonar a falsa opinião de que o Sol é um centro imóvel, eu abjuro, amaldiçoo e detesto os erros e heresias ditas, contrárias ao que diz a Santa Igreja...» Galileu Galilei, sob ameaça de tortura e morte pela igreja católica, em Junho de 1633.
Mas na verdade...
«Mas de facto Ela move-se...», Galileu.
E a verdade é que se move mesmo, e graças à sua inteligência conseguiu, exilado em sua própria casa empurrar mesmo assim a Humanidade no caminho da evolução, gozando com os tribunais dos Hommo muito pouco Sapiens de vestes douradas e solidéus vermelhos evitando assim ser mais uma figura entre os de aqui:
História que não nos ensinou lá grande coisa pois em desafio os mais atentos a descobrir as diferenças entre imagens:
E é por estas e por outras e por ser também um naturalista, que me apetece afirmar, como os antigos que por algo parecido o diziam escondidos:
«Nesta casa entro mas não adoro pau nem pedra mas sim o Deus que tudo governa.»
( Os Criptojudeus da Faixa Fronteiriça Portuguesa, Eduardo Mayone Dias, 1997)