Terça-feira, Junho 01, 2010

Amnésia a alta velocidade





«Claro que o TGV não vai ser lucrativo a curto prazo, claro que não é algo que precisemos directamente.. E uma obra desta dimensão envolve sacrifícios, ainda mais em tempos de crise.»

Estarei eu tão errado por não considerar o TGV um luxo?
Para falar a verdade este tipo de pensamento de "orgulhosamente sós" é algo que me enerva bastante no  pensamento do povo dito português. A "crise", essa entidade de quem muitos falam mas poucos tentam entender, não é de todo de nacionalidade portuguesa e Portugal não é o único país em que se constroem troços de alta velocidade. Aliás, ainda há uns anos atrás não era difícil ouvir vozes lusitanas a bradar: «Como é possível que Portugal ainda não tenha um TGV».

O TGV tornou-se uma bandeira política. 
A chamada oposição percorre o caminho mais fácil, o que não exige a apresentação de alternativas nem de correcções práticas, mas que se limita a um papel "etimológico" dando uso à raiz da palavra que a define e tomando o papel de espectadora que sabe que tem o poder de invocar 4 ou 5 termos que levam o pequeno país ao êxtase opondo pelo que o "opor" é simplesmente.

O que me leva a pensar desta maneira, e até a rir um pouco, é o facto de que os primeiros acordos com os espanhóis datem de 2006 e a aprovação do orçamento para o projecto de alta velocidade date de 2004, na altura em que o PSD estava no governo. De uma forma resumida tratava-se não de um troço Lisboa-Madrid apenas mas sim de:


  1. Linha Porto-Vigo, como linha de alta velocidade, com uma estação intermédia entre o Porto e a fronteira luso-espanhola de Valença/Tuy, com horizonte temporal de 2009;
  2. Linha Lisboa-Madrid, como linha especialmente construída para a alta velocidade, com estação intermédia em Évora e na fronteira luso-espanhola de Elvas-Badajoz. Deve igualmente a sua parametrização permitir a circulação de composições ferroviárias de mercadorias compatíveis com as características do traçado e as exigências de exploração, com horizonte temporal de 2010;
  3. Linha Lisboa-Porto, como linha especialmente construída para a alta velocidade, com estações intermédias em Leiria, Coimbra e Aveiro, com horizonte temporal de 2013;
  4. Linha Lisboa-Faro-Huelva (via Évora), como linha de alta velocidade, com uma estação intermédia em Beja, com horizonte temporal de 2018 dependente de estudos técnico e de viabilidade económica;
  5. Linha Aveiro-Salamanca, como linha de alta velocidade, permitindo a circulação de composições ferroviárias de passageiros e mercadorias, com estação intermédia em Viseu, com horizonte temporal de 2015.


Durão Barroso e a Manuela Ferreira Leite quiseram assim alcatifar Portugal com linhas de alta velocidade. E o mesmo não é produto da minha delirante psique, está de facto materializado em Diário da República: http://dre.pt/pdf1s/2004/06/149B00/39293930.pdf . E esta hein?



Aprovado pelo mesmo PSD que:

Talvez aqui o Durão, alguns membros de algumas bancadas da oposição ou até "comentadores políticos de televisão" cuja enfadonha  capacidade crítica e nula capacidade prática, me argumentem: «Mas ó Zé então mas não vês que agora o país está em crise e essas obras foram propostas noutros tempos», eu relembro os meus amigos que o mesmo Durão Barroso, e sua fiel Manuela Ferreira Leite, afirmou no início do seu mandato que: «O país está de tanga!», e essa frase ecoou-me até hoje.

Eu pessoalmente não defendo nenhum lado em particular. Defendo sim a coerência e atacarei sempre que possa a demagogia. 

Podemos e devemos criticar, aliás é disso que a democracia se alimenta. Mas em termos de amnésia devemos ter um pouco mais de contenção.

Segunda-feira, Março 15, 2010

Metamorfose Urbana I


Exausto sento-me naquele lugar da carruagem. Mais uma decisão na minha vida que firmei por motivo algum em particular. Talvez tenha até aferido sobre qual seria a minha preferência, entre a panóplia de experiências de viagens em diferentes lugares de carruagens como esta, discussão inconsciente que certamente ocorreu em paralelo com outra qualquer e provavelmente numa sala alheia à dos meus desejos mais imediatos, mas como em tantas outras decisões o meu Inconsciente pura e simplesmente me quis ali... encostado à janela, e, como em tantas outras visitas a carruagens como esta, de costas para o sentido do movimento de mais um comboio, no fim de mais um dia.
Entorpecido encosto a cabeça ao vidro e assim que se sustem o movimento do meu corpo, sujeito agora apenas aos solavancos dos carris, sou invadido novamente por tudo aquilo que me sufoca e me absorve. Aquelas vozes incansáveis e impossíveis de emudecer que nos tentam mostrar que grande parte do nosso ser é tudo menos imutável e que este se deixa lapidar de uma forma exagerada pela vida que levamos ou que nos fazem levar, mesmo que isso nos atormente. Senti-mo-nos paradoxalmente sós e presos a este viver comum, mas ao mesmo tempo convergimos no limite para este Ser único, esta consciência que a cada um de nós, egoístas criaturas, liga a todas as outras, eternas responsáveis.
Continuo assim a viagem, embriagado pelos propósitos da minha própria existência, por tudo o que me faz ser quem sou e por tudo o que me obriga a viver assim mesmo que não o queira, e de repente algo me desperta e me trás para fora de meus pensamentos. Algo no vidro. Deixo de conseguir ouvir as súplicas e de registar as quasi-talmúdicas discussões entre as "animadas" faces do meu sub-consciente. Permaneço ali, atónito perante aquela imagem. Todo o meu intelecto emerge deste transe envenenado e concentra-se naquela imagem que me acorda de traços tão (naturalmente) familiares. Olho assim o meu reflexo na janela deste comboio e permaneço assombrado por simplesmente já não o conhecer.

Terça-feira, Março 02, 2010

Vejo-te na Rua Cosme Damião? «Claro que não»




Outros também existem a que gosto de chamar: "Entre Aspas". Dizem-se Portistas, Sportinguistas mas no fundo no fundo os verdadeiros adeptos dos clubes repudiam-nos, isto porque a necessidade de viver o Benfica é tão grande que vestem uma outra camisola nem que seja pelo raciocínio primata de a cor ser outra que não o vermelho. São assim os "Portistas" e "Sportinguistas" (entre aspas claro). Os verdadeiros Sportinguistas, Portistas, Bracarenses, etc... esses sim têm o meu respeito, pois só a esses consigo compreender o que é ter amor a um clube como eu tenho ao meu. Quanto aos antis e aos "aspas" não apanhei ainda a perturbação psicológica ou social:

Não sei se quero que o "meu" Sporting ganhe ou perca este fim de semana. É que assim as galinhas ficam longe.

Já não ganhamos nada mas que ganhe o Braguinha.

Até um presidente desportivo diz isto. Aposto que muitos aplaudiram, mas sei também que os verdadeiros adeptos desse clube repudiam atitudes destas que tentam afastar a carga da incompetência e da falta de liderança para um fenómeno que é aplaudido por "adeptos" mas nunca pelos adeptos.
Claro que o Correi da Manhã especula sobre passivos de valores ridículos, claro que A Bola e o Record falam muito no Benfica, e O Jogo percebe que existe um mercado que não engloba, por definição de oposição, o mesmo que os outros dois. Porque o Benfica continua a ser um grande clube o seu nome vende mais que qualquer outro?

Claro que não.

 Não tenho a mínima dúvida de que o Porto é um grande clube. Tem talvez até há uns anos atrás a melhor estrutura desportiva do país que serve de exemplo a todos aqueles que se dizem grandes ou pequenos e os resultados estão à vista nos últimos 20 anos. Mas alguém admite que, embora ache que tardiamente, o Benfica tem hoje em dia uma estrutura desportiva forte e que mostra os seus frutos?

Claro que não.

 Sem dúvida que o SC Braga está a fazer uma grande época, já no ano passado fez tanto cá como na Europa, já no anterior fez e assim por diante...
Alguém duvida do mérito deste clube perante uma liga de futebol dominada por um ou dois clubes?

Claro que não.

E alguém admite que o Benfica este ano está muito mais forte, talvez até o Benfica mais forte dos últimos 10-15 anos e que talvez seja por mérito próprio que apareçam goleadas, vitórias, 9 pontos sobre uma das melhores equipas e um primeiro lugar isolado?

Claro que não. Existem sempre túneis, apitos, malinhas e vitaminas.

 Quando vejo o Porto, Sporting, o Braga, Nacional, Guimarães... na Europa, caso não seja contra o Benfica claro, gosto de os ver ganhar porque representam o país onde vivo e sou o primeiro a admitir que infelizmente nos últimos anos é mais provável ver qualquer um destes num jogo à 3ª ou à 4ª do que ver o meu clube. Será que existem assim tantos não-benfiquistas (antis e "aspas") que sinceramente gostem de ver o clube da luz ganhar na Europa?

Claro que não. Vamos receber os adversários ao aeroporto. Vamos cantar "Barcelona" num jogo em casa para a liga portuguesa porque o Benfica é eliminado pela equipa que acaba por ganhar a liga dos campeões. "Claro contra os coxos do Everton, ou do Herta",  etc..etc...

E todos aqueles que, vivendo num país ridiculamente pequeno o tentam dividir. Nunca pensaram que por um acaso pode ser por isso que vivemos num país de pequenas dimensões e de uma paradoxal pequenez tão grande?

Claro que não. País de Mouros e Marroquinos.

Não. Não estou num pranto desalmado. Sou do Benfica, sócio há muitos anos e nunca fui um anti. Já vi talvez mais jogos em Alvalade onde aplaudi mais que muitos "adeptos" (de novo as aspas) o consigam ter feito na própria casa. Vibrei com vitórias de outras cores nem que seja pelo conforto que dá ver na TV que aquele miúdo quando falha solta um gutural "Caralho" ou um "Foda-se" naquelas terras onde nem consigo perceber como posso pedir uma cerveja.
Não. Não preciso de expressões ridículas ou escárnios baratos para ficar com "azia". Durante anos andei "aziado". E Não. Não metes piada nem me estás a conseguir humilhar nem és tu que me colocas assim o "estômago".
Aliás vocês os antis e os "aspas" não percebem que nós Benfiquistas não precisamos das vossas tretas para percebermos o que é azia, choro, tristeza, desprezo e frustração. 
Durante anos ficámos em 2º's, 3º's, 4º's, etc.. (aliás muitos de vocês até devem saber isso melhor do que eu, e do que as próprias estatísticas dos "vossos" clubes nessas mesmas épocas).
Durante anos vimos maus treinadores, más exibições, maus jogadores, maus jogos. E é o amor pelo nosso clube que nos faz ficar assim. Quando perco é a derrota que me invade, o escárnio, as piadolas são apenas ruído de fundo e um burburinho ténue atropelado pelo ensurdecedor som do cruel apito final que carimbou a minha derrota.

 Uma coisa é certa. Esta época o Benfica está a jogar muito mas MUITO à bola. Jogamos bem, marcamos muito, já se troca a bola em comparação aos 2-3 passes por posse de bola a que estávamos habituados, recuperamos a bola rapidamente, pressionamos a campo inteiro, defendemos, atacamos: JOGAMOS BEM! Temos alguns jogos difíceis que nos podem custar o campeonato, não, não somos todos iguais, e já tivemos também alguns azares e erros ao longo da época que nos pesar no final das contas. Mas uma coisa é certa: Jogamos bem, temos 56 golos esta época e no fundo no fundo elas contam é lá dentro. 
Não é óbvio?

Claro que não. Ganham os túneis e os apitos, os colínhos e as vitaminhas.

 E a verdade custa? O Porto não está tão bem como habitual e isto é um facto. O Sporting este ano pode estar ao nível dos últimos anos ou até um pouco pior. Mas na verdade a grande diferença é que o Benfica, que tão mal habituou tanta gente, este ano está bem e talvez seja essa novidade que tanto atormenta e puxa pela arrogância e infantilidade daqueles que se sentem antis e "aspas", filhos primogénitos da frustração.

Parece que estou eu a ser arrogante? Deixa-me corrigir. Já longe vão os anos em que ganhámos alguma coisa e sou o primeiro a admitir isto. Mas a verdade é que mesmo assim, seja em primeiro ou até mesmo em 4º com o Porto a ser campeão com mais 20 pontos, mesmo assim seremos sempre "Colinhos", será sempre uma má decisão de arbitragem que nos beneficie que ecoará sobre um mar de outras que prejudicam, compraremos sempre flops mesmo que os outros tenham pior e mais caro, teremos sempre "Marias Alices" mesmo que tenham amor à camisola, teremos sempre 7-1's mesmo que tenhamos feito a dobradinha nesse ano, teremos sempre apitos encarnados mesmo que existam outros apitos mais reluzentes e com um som factual gritante. Estou a mostrar-nos como os eternos coitadinhos?


Agora respondo eu: Claro que não!


É só para perceberes que não descobriste nada sobre mim nem sobre o Benfica. Nem cresces ao mandares bocas ou a vibrares com a minha derrota e tristeza. Espanta-te antes por seres tu sim um livro aberto mas com pouca coisa escrita, pois os capítulos da vida de um homem escrevem-se com convicções verdadeiras, não pelo "viver" através da vida dos outros. Podes-em vir com os "menos choro" ou com as "galinhas" e afins. A verdade é que nós Benfiquistas esta-mo-nos a borrifar para os antis & "aspas", para se estão ou não com azia e se têm ou não moral. Não percebem que se envergonham a si mesmos e aos verdadeiros adeptos dos clubes que vocês dizem que apoiam?

Claro que não.

Bem me parecia...
Vivem tanto o Benfica como eu e como nós. Pouco me importa se o Hulk é realmente bom ou mau, se o Liedson marca muito ou esteja pior, se o Hugo Viana é um patrão do meio campo ou não. A mim importam-me mais Saviola, Aimar, Cardozo, Di Maria, Ruben, Quim, David Luiz, etc... importa-me a mim o meu clube e pouco me importa se vibras com ele ou não. E sabes porquê? É simples:

Vejo-te na Rua Cosme Damião?

Claro que não

Quarta-feira, Janeiro 27, 2010

65 anos depois


«Quem não lembra o passado está condenado a repeti-lo»